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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Álbum de Família (John Wells, 2013)
Sabe aquele ditado “mãe é tudo igual, só muda de endereço?”, após assistir o filme ‘Álbum de Família’ (August: Osage County), é possível perceber que isso pode se estender também à família.
O longa, que é baseado na peça de teatro vencedora do Pullitzer de Tracy Letts, e dirigido por John Wells, apresenta a história de uma típica família americana de classe média, que vive no meio-oeste dos EUA. Após o pai desaparecer misteriosamente, os membros acabam se reunindo novamente na casa onde ele vive com a matriarca, Violet, interpretada por Meryl Streep, e é neste lugar que a trama se desenvolve. Onde traumas, amarguras e feridas do passado vem à tona, rendendo um roteiro identificável, regado à diálogos deliciosos, pertinentes e honestos, dispensando o cinismo típico de autorretratos americanos.
O humor e o drama são dosados incrivelmente bem aqui. Não existem cenas apenas dramáticas ou extremamente cômicas, o trágico e o engraçado se confundem, fazendo com que o espectador ao mesmo tempo que se encontre aflito, não consiga conter a risada, culpa do excelente texto adaptado pelo próprio Tracy Letts e através do perfeito timing do elenco.
Julia Roberts, apresenta aqui, sua melhor atuação em anos, transmitindo apenas com o olhar, as angústias de sua personagem que sente o peso dessa família nas costas. Streep rende grandes momentos no filme, porém possui uma performance um tanto quanto over para uma personagem que por si só já é visceral e necessitava de um pouco de sutileza. Margo Martindale interpreta muito bem a típica tia engraçada e com forte presença, mas a personagem acaba se apagando no decorrer da trama. Juliette Lewis faz de sua personagem uma caricatura e Ewan McGregor passa despercebido. Os grandes destaques do elenco ficam por conta de Julianne Nicholson e Chris Cooper, que apesar dos papéis pequenos, arrebentam quando estão no olho do furacão.
A direção de John Wells é simplória, não possui presença, e acaba sendo ofuscada pelas performances e pelo roteiro, mas não compromete o resultado final. A fotografia do brasileiro Adriano Goldman cria uma ótima atmosfera, fazendo daquela casa mais do que um cenário, um membro da família.
Vale a pena conferir esse trabalho, onde talvez você possa enxergar ali um pouco da sua própria família.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Questão de Tempo (Richard Curtis, 2013)
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Questão de Tempo (Richard Curtis, 2013)
Questão de Tempo é um romance que acompanha a história de Tim (Domhnall Gleeson), um jovem desengonçado que descobre fazer parte de uma linhagem de viajantes do tempo, e decide usar seu dom para encontrar a garota dos seus sonhos. O novo filme de Richard Curtis (Simplesmente Amor) nada mais é do que feel good movie típico e despretensioso, que traz uma fórmula já batida como pano de fundo para uma comédia romântica açucarada.
A primeiro momento é impossível não embarcar na trama, que apesar de utilizar de caminhos fáceis, consegue ser verossímil e acima de tudo, muito divertida. Sem falar na trilha sonora de muito bom gosto que dá as caras principalmente nas primeiras sequências de uma festa de réveillon. A fotografia é vibrante, usando e abusando de cores que dão o tom de um filme que promete ser alegre e otimista.
O humor latente do início vai se esvaindo no decorrer do filme e dando cada vez mais espaço ao romance que Tim desenvolve com a personagem de Rachel McAdams. A cena do primeiro encontro dos dois, às escuras, é muito bem bolada e divertida, criada sob um texto muito gostoso e natural.
Entretanto, o longa-metragem do roteirista de ‘Quatro Casamentos e Um Funeral’ e ‘Um Lugar Chamado Notting Hill’ acaba se perdendo na reta final, e de uma comédia romântica graciosa e divertida, passa a cair em artifícios forçados de comoção que poderiam ser dispensados facilmente, usando e abusando de textos de autoajuda com mensagens de “aproveite seu dia” e sequências de imagens de família de comercial de margarina.
A sensação que fica é que a intenção de Curtis era boa, porém acabou se perdendo num emaranhado que levou Questão de Tempo a ser o típico filme que conquista o espectador baseado numa catarse de emoções que faz cegar a percepção de um discurso forçadamente otimista. Meia hora a menos de filme, elevaria consideravelmente a sua qualidade, e se tornaria menos cansativo e maçante.
Para os apaixonados e casais em início de namoro, Questão de Tempo acaba sendo numa boa pedida para uma ida ao cinema. Mas para aqueles que têm uma visão mais honesta de uma relação, talvez prefira ficar em casa e fazer uma revisão da sincera e brilhante trilogia de Richard Linklater, Julie Delpy e Ethan Hawke: Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
O Lobo de Wall Street (Martin Scorsese, 2013)
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O Lobo de Wall Street (Martin Scorsese, 2013)
Se pode soar repetitivo dizer que a influência católica no cinema de Martin Scorsese é determinante, fica latente o senso de moral em toda sua obra. Em Caminhos Perigosos, por exemplo, há o retrato do submundo gangster de Nova York, com uma visão extremamente religiosa – observada tanto no discurso do personagem de Harvey Keitel como na própria linguagem do filme, em especial na sua fotografia vermelha e pecaminosa. Quando soube da sua adaptação de O Lobo de Wall Street, achei estranho, levando em conta a carreira do diretor. Enganei-me. Não há nada mais natural do que este ser um projeto de Martin Scorsese. Profundamente baseado na moral, feito toda a sua obra – falamos dum grande aprendiz de Elia Kazan, afinal.
Não confundam: O Lobo de Wall Street não é um filme moralista, que isto Scorsese nunca foi. O que há é a moral inerente ao tema. O diretor não precisa, de fato, julgar o personagem, já que ele constrói sua sina e o espectador, inevitavelmente, irá julgá-lo. Há uma evidente condenação dos excessos. Justamente por isso os conservadores norte-americanos não apreciaram a obra: o nova-iorquino escancara tudo o que a sociedade estadunidense não gostaria de encarar sobre si. Diferentemente do que a crítica de cinema reacionária aponta, não trata-se da glorificação de um certo estilo de vida. Não há conivência com Jordan Belfort, o protagonista. Se Scorsese filma a luxuria, é porque ela existe. E o faz armando o cenário para a completa decadência. É algo parecido com Os Bons Companheiros: mostra-se o ápice para a inevitável queda.
Escrito por Terence Winter (produtor executivo de “Boardwalk Empire”), baseado na autobiografia escrita pelo próprio Belfort (interpretado por Leonardo Di Caprio), o roteiro conta a história dum rapaz de classe média baixa que transforma-se num grande magnata de Wall Street, abrindo uma empresa de corretores de títulos de valores, especializada em ações-tostões, assim chamadas pelo seu baixo valor, onde a comissão para o vendedor é de 50%.
Jordan Belfort é um personagem absolutamente detestável. Dito isso, suas atitudes são mesquinhas e meramente movidas por dinheiro. Seu emprego é, basicamente, roubar dos outros para enriquecer. O excesso de drogas consome sua relação familiar. Seus discursos eloqüentes, à moda de um pastor evangélico, disfarçam sua fragilidade. Ou seja, alguém difícil de se afeiçoar. Para contornar isso, Scorsese aposta num voice-over que nos coloca dentro da cabeça do protagonista (recurso muito utilizado em sua filmografia), acompanhando sua linha de raciocínio, o que permite inúmeras piadas com isso ao imaginar o pensamento dos personagens, contraposto ao que falam. Além disso, a quebra da quarta parede, ou seja, a comunicação direta com o público, aproxima o espectador do personagem, fazendo nos sentirmos íntimos e vítimas de uma suposta honestidade discursiva.
Acompanhando toda a loucura do protagonista, Scorsese permite-se brincar um pouco, girar a câmera, colá-la em DiCaprio cheirando pó. Tudo captado em cores muitos berrantes – o que muda radicalmente no terceiro ato, onde a fotografia, inclusive, torna-se muito mais sombria, devido ao caráter descontrolado, machista e violento que o protagonista assume. Thelma Schoonmaker, habitual parceira do diretor, monta o filme de maneira que três horas passam muito rápido. Esse, porém, é o menor de seus méritos. Há muito não se via uma relação tão complexa e harmoniosa entre música e montagem como em O Lobo de Wall Street: enquanto toda a freneticidade impressa na obra não recai em cacoetes do cinema moderno (à lá Ipod), a trilha sonora, escolhida a dedo pelo diretor (de Cream a Foo Fighters!), guia o decorrer do longa. Se “Spoonful” pode aludir significativamente a drogas, outras canções, como a utilizada na sequência do telefone, trazem uma fina ironia ao filme – e observe como, no momento em que há um diálogo nesta canção, corta-se para um ambiente que não o habitual onde ela é executada. Além disso, responsável pelas mudanças de ritmos duma cena para outra, consegue provocar, diga-se, humor com a música, interrompendo-a num momento chave para provocar um efeito cômico.
Aliás, poucas vezes Scorsese esteve tão ácido – e histérico (no melhor sentido possível). Numa construção de humor complexa, passando por várias vertentes, o diretor permite-se brincadeiras como a cena em câmera lenta de Jonah Hill tendo uma trip, a qual funciona justamente porque não há nada de tão grandiosa nela – enquanto a montagem a trata dessa forma. Já o humor físico – neste sentido, Scorsese bebe muito em irmãos Marx e Harold Lloyd, por exemplo – é empregado sempre de maneira inteligente, como prova a antológica sequência da “viagem” dos personagens num momento absolutamente inapropriado – e essas “trips” são utilizadas a esmo para provocar humor, sempre com eficácia. Mais uma vez dando aula de narração, Scorsese vale-se das observações de Belfort para criar comicidade, sendo um bom exemplo uma sequência na qual a percepção do personagem é alterada por droga. E quando nos deparamos com a realidade, diferente do que ele narra, o choque cômico é imediato. O efeito narrativo do humor é essencial para a obra. Embora alguns personagens e situações sejam inevitavelmente engraçados por si só, o humor nos insere ainda mais no universo caótico retratado na obra, a ponto de perdoarmos (quase) todos os atos repreensíveis dos personagens, ao menos momentaneamente – algo fundamental para a fluidez da narrativa.
Com timing preciso, o elenco consegue se superar – e refiro-me a praticamente todos os atores. Contando com uma gama de coadjuvantes brilhantes, quem brilha mesmo é Leonardo DiCaprio. Compondo seu personagem como um sujeito cínico – sua palestra de “despedida” é reflexo disso – e com um discurso quase messiânico, o ator entrega sua melhor performance, acertando na comicidade do personagem e em sua histeria, sendo visceral quando Belfort revela-se um monstro. Jonah Hill, por sua vez, está melhor do que nunca, interpretando um personagem um tanto patético que se transforma num milionário e fica ainda mais imbecil, sendo que só ele se leva realmente a sério – e seu sorriso tapado é hilário. Ademais, Matthew McConaughey rouba a cena sempre que aparece.
Ridicularizando por completo o protagonista, Martin Scorsese condena todo o “sonho americano”, os excessos dos magnatas e os roubos dos “lobos” da Wall Street. Dessa vez, os personagens retratados pelo diretor soam mais perversos e condenáveis do que os mafiosos de seu cinema. Absolutamente, o melhor Scorsese em tempos.
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